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Viva a Daslu!

Monday, June 06, 2005

Ontem a noite tive uma discussão (no sentido civilizado da palavra) com o Chico Maia sobre a inauguração da nova Daslu em São Paulo. Ele citou alguém prestigiado que infelismente neste momento não me recordo o nome que havia publicado um texto criticando o empreendimento e classificando-o como absurdo, talvez imoral, obsceno ou algo do tipo diante das mazelas do nosso sofrido povo brasileiro. Vou tentar reproduzir aqui a minha opinião sobre o assunto.

Em primeiro lugar o abismo que separa o povo brasileiro dos produtos à venda na Daslu não é causa, é consequência da realidade que vivemos. Só este argumento, na minha opinião, derruba qualquer outro que se apresente contra a pobre loja.

Não bastasse isto acho importante lembrar que o mercado do alto-luxo cresce em todo o mundo e é um nicho de mercado que emprega muita, mas muita gente. Pra se ter uma idéia um restaurante de alto nível emprega algo em torno de 7 funcionários para cada 10 clientes que atende. Estes funcionários são gente comum, como eu e você. Estima-se que em São Paulo há hoje algo em torno de 30.000 "milionários" e cada um usufrui direta ou indiretamente dos serviços de aproximadamente 500 pessoas todo mês. E tem mais um numerozinho: um alqueire de soja plantada emprega 1 pessoa. Um campo de golfe com metade deste tamanho emprega 190 pessoas.

Além disto há, na minha opinião, outro sinal de miopía nesta crítica. A gravidade da situção brasileira no quesito "má distribuição de renda" não mora na distância que separa o povo da Daslu, mas da distância que separa a maior parte do nosso povo da educação básica, da alimentação nutritiva e de um emprego digno. Isto é o que o povo quer e precisa. Vou fazer um desenho pra ver se ajuda...

Fome ---- (A) ----> Restaurante a quilo ---- (B) ----> La Tambouille

O problema do Brasil não é a distância (B), mas sim a (A). Percebe? É por isso que eu acredito sinceramente que não há escândalo nenhum em abrir uma loja como a Daslu nem descobrir que os paulistanos torram 4 bilhões de realetas por ano em produtos de alto-luxo, afinal eles estão gastando esta grana pretíssima por aqui. Pior seria se estivessem mandando tudo pras Ilhas Virgens ou gastando em Nova Iorque e Paris.

Sim, porque brasileiro cheio da grana disposto a pagar valores estratosféricos por produtos de qualidade sempre houveram. E eu realmente acho uma vitória o nosso país começar a oferecer alternativas para que eles gastem este dinheiro por aqui. Toda a nossa economia ganha com isso. (Lembre-se, eles gastariam este dinheiro de qualquer jeito, só que lá fora). Então xô recessão, vamos gastar mesmo minha gente!

Sinceramente eu estou muito mais preocupado em conquistar o meu modesto sustento do que em me indignar com os meios destes ou daqueles. Eu só escrevi tudo isso porque acredito que devemos abrir os olhos para alguns fatos antes de nos deixarmos corromper pelo veneno da inveja. Por isso viva a Daslu, e que venham outras... Dasdri, das Dasgra, Daspri!

Fonte: Veja São Paulo, Editora Abril. Edição 42, maio de 2005.

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